sexta-feira, 6 de julho de 2018

HISTÓRIA & MEMÓRIA: Seu Mané – Ascenção e queda do rei do ouro de Itaituba

 
Aldo Inácio já teve 10 aviões e uma frota de 100 carros, hoje possui somente um hotel
Amado por alguns, odiado por outros. Primeiro anunciante em nível nacional com vinheta exclusiva na Rádio Nacional “A voz dos garimpeiros”, o homem da hora certa. Estamos falando de quem? Do Aldo Inácio ou do Seu Mané. Aldo Inácio era o 12º de 18 irmãos nascidos em Valparaíso, interior de São Paulo. Vamos falar dos dois, mas o personagem acabou absorvendo o até então homem comum Aldo Inácio, que depois de tantas aventuras e desventuras de Valparaíso a São Paulo, Paraná, Rondônia e diversas outras partes do Brasil, acabou parando no Pará e virando Seu Mané, milionário da garimpagem do Tapajós.
 
Como diziam na gíria garimpeira dos velhos tempos de bamburro, ele chegou blefado, sem nenhuma ruela, puxando uma cachorrinha. Seu Mané quando estava por cima da carne seca, nos tempos de vacas gordas, trouxe e ajudou a promover a carreira de inúmeras celebridades musicais do País. Foi ele quem lançou, na época, Márcia Ferreira, que estourou nacionalmente e internacionalmente com o sucesso “Chorando se foi”; ajudou a projetar Gretchen, que ficou quase dois meses em Itaituba e na região de garimpos fazendo shows apoiada pelo famoso ”Paxá do Ouro”, o homem que tinha três esposas, o homem que desafiou não a lei da gravidade, mas a lei de costumes tradicionais, ao ter três mulheres e do resultado de suas tórridas paixões teve trinta e quatro filhos, netos e bisnetos. Hoje já perdeu a conta.
Seu Mané virou uma marca, um produto de marketing pessoal. Seu Mané surgiu no ano de 1974 (ano de copa do mundo). O nome Mané surgiu de uma singela homenagem feita ao ídolo do futebol, Mané Garrincha, o anjo das pernas tortas batizado pelo poeta Carlos Drummond de Andrade. Mané deu nome ao primeiro restaurante montado em Itaituba “Restaurante seu Mané”. Daí a marca se estendeu para seus garimpos, compra de ouro, empresa fotográfica mais famosa da região Foto RI e assim em todo empreendimento, aliás nos 16 empreendimentos que o colocou no ranking de um dos homens mais ricos do Brasil, da Amazônia e de Itaituba no Tapajós. De personalidade controversa, seu Mané a medida que aumentava seu patrimônio também arregimentava inimigos, principalmente da política. Diz ele que por pura inveja, por incompetência de alguns que não lidavam com a ideia de um considerado forasteiro ter chegado em Itaituba e já está se destacando como empreendedor.
Marqueteiro nato, precisou disso para sobreviver, como mascate ou marreteiro precisou se virar nos trintas quando vendia todo tipo de mercadorias que caia em sua mão. Quando ainda era pobre e desconhecido ganhou dois apelidos Zé da Macaca e Zé Doido; o primeiro porque usava uma macaca como atração nas feiras, uma macaca que dançava ao som de um bolachão tocando numa vitrola, por onde passava juntava multidão e, Zé Doido porque criava bordões e sabia usar o seu dom da palavra para gritar no megafone e vender suas bugigangas (roupas, sapatos e o que mais caísse em suas mãos) .
Porém, contar a história de um homem, que queiramos ou não, acabou se tornando uma lenda viva, um mito na história da garimpagem, não é tarefa fácil numa simples matéria de jornal. Suas conquistas sempre foram grandes, o que mais vendia ouro, o primeiro que comprava à vista aviões da Embraer zerado, tinha uma frota de 10 aviões de várias marcas, quase 100 veículos de todas as marcas e tamanhos das suas 16 empresas. Tudo em Itaituba soava como ostentação, movimento acima da média em relação a outras regiões.
REI MIDAS: Seu Mané no mundo dos negócios sem exagero poderia ser parafraseado com o mitológico Rei Midas. Ao pé da letra se pode afirmar que tudo que seu Mané tocava virava ouro, porque buscava formas diferenciadas de vender seus produtos, aprendeu a lidar no universo dos garimpos, e com a psicologia aprendida dos UFCs da vida, onde muitas vezes levou porrada, foi à lona e se recuperou no ringue do destino enquanto algumas compras de ouro estavam entregues às moscas, a do seu Mané fazia fila de 150 metros, e o segredo era porque na época algumas compras de ouro discriminavam alguns pequenos garimpeiros e as vezes não comprava quando havia só 5 ou 10 gramas, e o seu Mané afirma que comprava de todos indistintamente na base do ”de grão em grão a galinha enche o papo”, juntando as gramas, muitas vezes fechava o balanço de tarde.
Seu Mané quando era milionário ajudou a bancar campanha de muitos políticos, entre eles Jader Barbalho, Domingos Juvenil e Wirland Freire.
Além do relacionamento comercial, Seu Mané disse que gostava de ajudar e tratar bem os garimpeiros, sempre doava camisetas, tinha refrigerantes diretos nas suas compras de ouro e, em alguns casos, quando o garimpeiro estava doente e blefado, ele dava ajuda, apoiava.
Como afirmamos aqui nessa matéria, seria humanamente impossível esgotar toda a histórica de um garimpeiro icônico que representou toda uma época e que hoje ainda representa a memória e história da garimpagem do Tapajós. Foram muitas, mas evocando o passado, de todos os revezes, de todas intempéries à queda, em 1979, quando Seu Mané atribui o início da derrocada, o limiar de sua ruína financeira, a queda de um avião no Km 140, quando o piloto Alemão entregou o comando do avião para seu irmão que era manicaca, com poucas horas de voo e por isso o avião caiu e explodiu torrando junto com as ferragens dinheiro para a compra de 50 quilos de ouro .
TRAJETÓRIA: Mas, avaliando toda trajetória de sua vida, Aldo Inácio em sua versão de homem pobre, e no anonimato (por opção) nos sugeriu duas máximas, duas reflexões que segundo ele sintetizam, identificam e interpretam tudo o que ele foi ontem e continua sendo hoje, sem glamour, sem ouro, mas muito feliz da vida. Aldo Inácio ou Seu Mané como queiram, atualmente vive em Novo Progresso, aos 69 anos, e há cerca de 28 anos com uma remanescente das três de suas mulheres (Rosineide Pereira da Silva, que tem 45 anos), que o levaram ao programa em rede nacional da Globo, Programa do Jó, como o Paxá do Tapajós.
Como não podemos dissecar, contar toda uma história de vida e empresarial, mas Seu Mané na verdade não explorava ouro, era comprador que revendia com exclusividade para a Casa da Moeda, através da empresa Sada & France, Comércio de Metais Preciosos, e com o que ganhou no segmento, investiu em outros ramos, restaurante, fotografia, mídia (2 rádios: Rádio Itaituba e Rádio Club de Itaituba, Tv Itaituba, retransmissora da Globo; depois Band e SBT). A saga, as aventuras e desventuras, as histórias mais picantes, vividas ou vivenciadas por Seu Mané, tudo será contado em um livro a ser lançado ainda esse ano.
Podemos assegurar que é uma história que se encaixa perfeitamente num roteiro de filmes, um longa metragens. Concluindo a reportagem, Seu Mané que hoje mora em Novo Progresso e na condição de gerente geral, sobrevive financeiramente tocando no ramo de hotelaria, Hotel Rodoviário, mas disse à reportagem do Jornal O Impacto, que prefere hoje ser chamado de cicerone, um contador de histórias, tendo se tornado uma atração turística na cidade. Na entrada e nas laterais das paredes do hotel montou um mural denominado “Memorial da garimpagem, de Seu Mané do Ouro”, são centenas de fotos que comprovam as histórias narradas pelo Homem que se casou com três mulheres e todas conviviam harmoniosamente na mesma casa.
Sobre a curiosidade despertada, ele mesmo explica: ”Nosso hotel só vive lotado, vem gente de toda parte do Brasil e do Pará para me conhecer. Eles ficam encantados com as fotografias, muitos nunca tiveram ideia do que seja um garimpo. Teve o caso de um casal que veio de São Paulo para ficar no hotel só para ouvir histórias de minha vida e da garimpagem. Então, tem sido assim e graças a Deus não tenho mais toda aquela fortuna de antes, do auge do ouro, mas sou um homem feliz na minha simplicidade”.
Seu Mané pediu para que não deixasse de incluir dois pensamentos seu sobre ele, por ele mesmo: Quem foi ou teria sido Seu Mané, o homem mais rico da garimpagem do Tapajós, o homem que vivia com três esposas e deu grande audiência à Globo ao contar sua prosaica história. ”Antes, fui um grande pequeno, desmoronei, hoje sou um pequeno grande, com humildade me estabeleci”. O segundo pensamento ele reforça sua imagem que construiu sobre o alicerce da honestidade. “Eu nasci o suficiente inteligente, para não precisar lesar
ninguém”. A História do Seu Mané do Ouro, o homem que teve a genialidade de casar com três mulheres vivendo no mesmo tempo na mais plena harmonia, em breve vai virar um livro onde ele vai revelar tudo sobre o ciclo do ouro, os bastidores da política, dos negócios. Com certeza, um livro que vai despertar a curiosidade de muita gente.
Por: Nazareno Santos
Fonte: RG 15/O Impacto

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